segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Brasilidades II

Por Z. Leid Silva

   Poucos dias após ter publicado meu texto "Brasilidades" tive um encontro que me obrigou a escrever uma segunda parte sobre o tema.
   Há duas semana fui no Molly Malones, típico PUB irlandês de Los Angeles (apreciem a ironia) com música ao vivo, a convite de uma prima que era amiga da vocalistade uma banda a qual iria se apresentar.
   O ambiente era escuro, devido às poucas luminárias de teto que balançavam, dando movimento as sombras que dançavam nas paredes de tijolos vermelhos. Eu bebericava uma stella meio-morna no ambiente esfumaçado (apesar da proibição do fumo) ao som energético e pulsante do rock com um  pézinho no folk do "The Cannyons" (vale dar uma olhada no youtube).
   Ao final do show , estava saindo do bar para conhecer a banda quando fui abordado com a seguinte frase proferida em um doce gauchês: "Vocês já vão embora?"
E no susto de ouvir a minha língua natal em um local tão pouco propicio, me virei e deparei com uma linda loirinha no final dos seus 20 anos.
   Carol, a gaúcha vocalista de uma banda americana de samba que iria se apresentar em poucos instantes no mal iluminado palco do Molly Malones.
Depois de papear por poucos minutos e ganhar um sonho de valsa da brasileira, fui assistir o show.
   E descobri então, em Los Angeles, num PUB irlandês, uma banda americana com uma vocalista gaúcha uma das mais cariocas canções.

http://www.youtube.com/watch?v=CsqKGKsW-Ts&feature=youtube_gdata_player

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Glória a deus! - Boris Y.

Ontem foi o dia mais quente do ano no Rio de Janeiro, muitos devem ter corrido direto do trabalho para casa e ligado o ar-condicionado, era o que eu deveria ter feito, mas não, fazer o óbvio, o lógico e o mais agradável parece ser uma tarefa muito difícil para mim.

Minha história começa na manhã de ontem. Decidi que iria direto do trabalho para o jogo do Fluminense no Engenhão, o plano era ir do centro de moto com o meu irmão. Separei camisa, tênis, meia e bermuda na mochila e fiquei uns 15 minutos olhando para as coisas com a sensação de “estou esquecendo alguma coisa”. Meu deus! Como eu tenho ódio dessa sensação! E o pior é que sempre desistimos de descobrir ou concluímos que está tudo ok, mas essa certeza só dura até chegarmos no local e percebermos o que esquecemos.

Dessa vez não foi diferente, faltando pouco tempo para o jogo percebi que havia esquecido nada mais nada menos que o capacete!!! Eu estava determinado a ir ao jogo e me vi forçado a pegar um trem na Central do Brasil na hora do rush. Até aí a situação já é péssima, mas como tudo na vida pode piorar. 

O jogo era às 19:30, cheguei ao térreo do prédio na Av. Rio Branco às 19:06 pronto para aventura de chegar no Engenho de Dentro em 24 minutos. Peguei o metrô correndo, desci na central e fui feito um foguete até o trem que partiria em 2mim sem escalas até o Engenhão. Entrei no vagão semi-lotado sem nenhum outro tricolor, mas com dois flamenguistas, e perguntei para a senhora ao meu lado:

- Esse trem para no Engenho de Dentro?
- Sim, é a primeira estação.

Eba! Dentro da medida do possível me dei bem. Foi o que eu pensei, mas, como eu disse acima, não há nada que não possa piorar. O trem partiu e em menos de trinta segundos um homem vira e fala em voz firme e alta:

- Irmão Tiago?
- Mais uma vez com a graça de cristo nosso senhor!
- Irmão José?
- Mais uma vez com a graça de cristo nosso senhor!
(e assim, sucessivamente, a chamada continuou)

Puta que pariu entrei no vagão crente!!

Sem escalas para que eu pudesse trocar de vagão me vi obrigado a participar do primeiro culto da minha vida! Deveriam lançar essa promoção: perca seu estádio favorito para obras que o deixarão cheio de cadeiras dificultado a você, como bom brasileiro, assistir ao jogo em pé, mas ganhe um estádio sem acústica na puta que pariu e com direito a viagem em um trem quente com muito louvor a Jesus Cristo.

Em seguida o nosso narrador chamou o irmão Jonas e passou a palavra a ele. O irmão Jonas com a bíblia encostada contra a sua cara começou a pregação aos berros contando alguma história bíblica que eu não me lembro. Ele era acompanhado pelos demais passageiros que repediam frases do tipo “jesus é amor”. Mas como eu digo pela terceira vez, não há nada que não possa piorar. Era chegada a hora da cantoria, em voz altíssima todos cantavam as músicas em quanto eu assistia a tudo atônito, seria impossível ouvir ipod mesmo se eu tivesse coragem de fazê-lo em um trem na hora do rush (na verdade eu tenho coragem, mas confesso que prefiri assistir à essa magnífica experiência sociológica e teológica no transporte público do Rio de Janeiro).

Enfim, se me pedissem para cantar eu começaria “ pará pará pará pá pá pá pá pá, para para para pa pa pa pa pa crack bum, para par para pa pa pa pa pa, morro do dendê é ruim de invadi, nois cuns alemão vamu nus diverti (...) fé em deus, dj!”. Essa é a única música com homenagem a deus que eu sei a letra.

Resumo da opereta, cheguei são e salvo ao Engenhão apenas 30 minutos depois de sair do escritório, perdi somente seis minutos do 3X1 e ganhei a salvação espiritual.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Macumba Braba, Piranhas e Aquecimento Global.

Dr. Onofre.



Segunda-feira, fui à Casa do Saber assistir à palestra “Economics of Adaptation to Climate Change” com o simpático economista do Banco Mundial, Sergio Margulis. Cheguei cedo e resolvi ler um pouco no café.

Pouco depois de sentar numa mesinha, percebi a presença de duas senhoritas que não faziam parte da fauna habitual daquele lugar. Ambas eram jovens, bonitas, louras e, ao que gritavam seus sensos estéticos, biscas suburbanas.

Estava ainda admirando essas moças, quando uma terceira mulher, essa sim típica habituée da casa, pediu para sentar na cadeira vazia de minha mesa. Deixei. Voltei a meu livro, até que seu celular esporrento tirou toda minha concentração. O diálogo que ouvi é, talvez, o mais bizarro já presenciado:

- Alô?!
- .....
- Oi Dona XXX, tinha mesmo ligado para a senhora mais cedo, tava com umas dúvidas.
- ....
- É o seguinte: o coração de galinha eu enterrei no jardim, mas a língua de boi é muito grande...

Pego totalmente de surpresa pela frase que acabara de ouvir, não tive outra reação além de engasgar com café e encarar, rapidamente, o rosto da figura. Mesmo com todos os sinais de que eu estava escutando a conversa, a mulher não se abalou e continuou pendurada em seu blackberry até o fim de sua consultoria de umbanda:

- Ah tá... então posso enterrar numa praça... Muito obrigada. Um beijo.

Assustado resolvi sair dali. Sem conseguir esquecer a conversa que presenciara, ouvi durante uma hora e meia um economista falar sobre o custo do apocalipse climático. Enquanto esperava um táxi na saída, minha atenção voltou-se novamente para as duas tchutchucas do começo da coluna, que agora conversavam na calçada:

- Poxa, a Valéria falou que aqui era bom de ajeitar[sic] marido, mas só tem mulher desocupada.
- Também, palestra sobre natureza...
- Não entendi nada do que o homem falou, e ninguém veio falar com a gente, perdi meu tempo.

Por um segundo pensei em abordá-las, tentar tirar a má impressão; mas, desisti da ideia. Não cheguei aos trinta anos, nem tenho um emprego, só ia deixá-las ainda mais arrependidas. 


sábado, 22 de janeiro de 2011

De como eu sou insensível.

Dr. Onofre.

Uma noite dessas do Rio, em que às duas da manhã ainda faz 31º, e não há a menor chance de ficar trancado em casa sem ar-condicionado, resolvi esticar a conversa num bar do Leblon. A ideia não era de todos brilhante, já que nenhum deles é capaz de oferecer mesa ou ar-condicionado descente, mas com um pouco de gim e de boa-vontade tudo se acertou. 

Apesar dos pesares a noite ia bem, até que a conversa chegou no assunto onipresente há dez dias: "Enchentes da Serra". Ok, antes de repetir o erro  que cometi no bar, devo deixar claro que me solidarizei com as perdas, doei leite em pó, vela, roupa velha, absorvente, roupa de cama, tempo e tudo mais que pude, mas simplesmente não aguento mais ouvir sobre isso.

Tentei convencer, sem sucesso, um grupo de pessoas de que o desastre não é a única coisa importante que se passa nessa semana, e que é um verdadeiro absurdo dedicar 100% do noticiário a isso. Parece que a vida se resume à enchente, e que ninguém mais dá bola para a inflação galopante, a reunião do COPOM, o jogo do Flamengo, ou o encontro do Obama com aquele chinezinho lá. 

Todos foram irredutíveis, ninguém conseguiu entender que qualquer dos assuntos acima tem muito mais chance de mudar nossas vidinhas do que o resgate da mulher gorda que perde o cachorro, do que a história do pai que alimentou o filho bebê como um pássaro, ou do que o vídeo do prefeito chorando. Não que o desastre não seja uma notícia importantíssima, ou que eu ignore o sofrimento, mas  noticiar a vida de cada um dos desabrigados extrapola muito a função de informar da TV.

Mesmo com toda minha retórica, não consegui escapar da elegância peculiar a jovens bêbados, fui trucidado vivo e servido à francesa. Já me dava totalmente por vencido quando chegou a conta, e um dos amigos entendeu, finalmente, meus argumentos ao deparar-se com o preço da picanha na chapa.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Identificação - Boris Y.

É incrível a quantidade de merda que eu tenho que ouvir todos os dias!

Estava eu na academia fazendo o pior de todos os exercícios, ou seja, abdominal, e ao mesmo tempo praticando um dos meus esportes favoritos, ouvir a conversa dos outros, quando me deparei com um diálogo lamentável.

No aparelho ao lado um homem malhado de uns trinta e poucos anos faz seus exercícios quando um bombado um pouco mais novo chega com a sua personal trainer bonita e aparentemente descolada.

A personal vira e diz:
- Ainda estou me recuperando da festa de sexta.

O mais velho pergunta:
- Você bebeu muito?
- Não, sou fraca, tomei duas taças de champagne. Eu tomo só uma geralmente, se tomo três já fico completamente louca.

Nesse momento eu pensei, que merda pra ela, mas enfim é mulher e tal... vou perdoar.

E a conversa continua com o mais novo:
- eu tb não sou muito de beber, não bebo em casa e bebo pouco quando saio.
- eu tb nao sou de beber.
- eu tb não, nem quando saio muito menos em casa.

Pausa. Eu também ainda não bebo em casa, e deve-se frisar o "ainda", acho que não tenho idade para isso, mas com mais uns aninhos...

Continua com o mais velho parindo a seguinte pérola:
- E esse negócio de barzinho heim, que programa de índio!
- É.
- É.

E o outro pondera:
- Tem muita gente que gosta.
- Não entendo isso...
- Coisa besta de carioca, mania de barzinho, fica lá sentado bebendo, bebendo... coisa mais sem graça!

MEU DEUS!!! Todos concordaram! PROGRAMA DE ÍNDIO??? Coisa besta de carioca? Sem graça? Naquele momento minha vontade era levantar irado, virar para ele e falar com o dedo levantado: “Programa de índio é o senhor! Velho, escroto e abstêmio! Um programa de índio ambulante, você leva o espírito da FUNAI para onde for!”. Além disso, um programa no qual você fica sentado, bebendo e falando mal dos outros nunca é sem graça, mentiroso, caluniador! Caluniador e mentiroso!

Duas coisas que eu não quero ser na minha vida: velho e abstêmio. A primeira delas infelizmente eu não posso evitar, mas a segunda envidarei meus melhores esforços para nunca sucumbir. Só tenho duas certezas na vida, a morte e que não pararei de beber e fumar.

Vários cenários compõem a paisagem desta cidade, um deles é o barzinho. Vários lugares compõem a vida social das pessoas dessa cidade, e um deles é o barzinho. Os italianos têm suas cantinas, os britânicos seus pub’s, os parisienses seus cafés, nós cariocas temos o barzinho e eu me orgulho muito disso!

Prefira você um pé sujou ou um pé limpo, para uma pessoa ser de fato carioca, seja ela abençoada por ter nascido aqui ou ter tido o bom senso de vir para cá, ela tem que se identificar com alguns aspectos da cidade, por isso, que me desculpem os abstêmios, mas o barzinho é fundamental.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Brasileiros Despatriados

por Z. Leid Silva (correspondente internacional)



Durante esse início da minha jornada no  exterior comecei a perceber o quanto os brasileiros nos estados unidos se sentem meio-perdidos. Mal se pode falar 3 palavras em português em um local público que logo vem a pergunta: "Vocês são brasileiros?"
NÃO! Eu gosto de falar português na rua para conhecer brasileiros aleatórios!!!
Atualmente não é incomum brasileiros viajando o mundo, então porque a surpresa? Você não vê dois grupos de japoneses fazendo festa porque se encontraram na rua.
É como se eles (e mesmo sendo brasileiro, eu não me sinto incluído nesse grupo) fossem os farofeiros do mundo. Talvez essas pessoas se sintam peixes fora d'água, mas na verdade o fato de estarem em grupo só os transforma em um cardume fora d'água.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

R10 ou Árvore- da-Lagoa-Fora-de-Época.

Dr. Onofre.

Acabo de passar por um momento curioso. Acho que posso definir como “Árvore-da-Lagoa-Fora-de-Época”, uma verdadeira micareta flamenguista. O trajeto entre Humaitá e Leblon feito, em geral, em menos de 15 minutos tornou-se uma verdadeira via crucis por causa de ninguém menos que Ronaldinho Gaúcho.

Aviso ao leitor crítico que esta coluna é mais um desabafo do que qualquer outra coisa. Isso dito...

Patrícia Amorim, você é uma quase total desgraça. Sua gestão pode ser definida adequada e elegantemente como "uma bosta". Quase fomos rebaixados; o time se desfez; nosso goleiro matador mostrou-se, de fato, matador; nosso ex-técnico, que nos custou uma fortuna, não rendeu nada (esse ano). Os esportes olímpicos e o caixa do clube também não estão bem, ao que me consta. A Batavo (Brasil Foods) não deve renovar seu patrocínio. Até o Ronaldinho, que era um motivo de felicidade, perde seu encanto - ao menos até o começo do campeonato -  trazendo a lembrança da maldita Árvore da Lagoa.

Depois de um mês de sinos eletrônicos badalando até meia-noite, engarrafamentos homéricos e nens impedindo minhas corridas, me vi, finalmente, livre da Árvore da Lagoa. Apesar disso, Patrícia Amorim apronta pro meu lado. Logo quando estava desprevenido, indo sair com uma menina, pego Ronaldinho Gaúcho na contra-mão dos meus planos.

De acordo com os jornais, os 20 mil torcedores quebraram o portão de acesso ao campo do Flamengo, atrasaram meu encontro e soltaram morteiros por quinze minutos. Lendo a manchete do oglobo.com e não sabendo que era dia 12, plena luz do dia, no meio do meu encontro poderia achar que tratava-se do Réveillon no Piscinão de Ramos.

Antes que Fluminenses sensíveis, botafoguenses frustrados e vascaínos padeiross venham tirar sarro do meu time, deixo claro que é o maior do Brasil com a melhor contratação do ano, apesar de fazer uma farofadas de vez em quando.